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A Subordinação Eterna dos Papéis na Trindade: Uma Crítica ao Pensamento de Wayne Grudem

A Subordinação Eterna dos Papéis na Trindade: Uma Crítica ao Pensamento de Wayne Grudem

Introdução

A adoção de manuais de teologia em instituições vinculadas a tradições eclesiásticas estabelecidas, a exemplo da nossa, nem sempre é uma questão simples. Esse parece ser o caso da conhecida e amplamente utilizada Teologia Sistemática de Wayne Grudem. Seu continuísmo, por exemplo, torna a obra atraente para seminários que valorizam uma pneumatologia carismática; em outros temas, porém, sua formulação nem sempre se harmoniza com as declarações doutrinárias dessas mesmas comunidades.

Entre essas tensões, uma nos parece especialmente relevante para nossa tradição, justamente por reconhecer na herança patrística um de seus pilares fundamentais, em especial o Credo Niceno. Essa ênfase se torna ainda mais significativa quando lembramos que um dos documentos fundamentais da fé anglicana — o Quadrilátero Chicago-Lambeth — reconhece o Credo dos Apóstolos, como símbolo batismal, e o Credo Niceno como declaração suficiente da fé cristã (IGREJA ANGLICANA DE CAMPINAS, [s.d.]). A questão em pauta é a chamada subordinação eterna do Filho, posição que, como avaliaremos, afronta de modo significativo a ortodoxia nicena.

Ressaltamos que as disputas em torno da natureza de Deus sempre implicaram consequências diretas para a compreensão da salvação, da Igreja e das relações humanas; por isso, geraram inúmeros debates e concílios. É nessa perspectiva que precisamos situar o debate contemporâneo sobre a subordinação eterna do Filho, em especial a visão defendida por Wayne Grudem.

A base do raciocínio de Grudem, consignado em sua Teologia Sistemática,  concentra-se na alegação de que as pessoas divinas só podem ser distinguidas se houver papéis eternos de autoridade e submissão. Para o teólogo, essa seria a leitura natural do próprio texto niceno desde 325 d.C.:

Mas se não há subordinação econômica, então não existe diferença inerente na forma como os três se relacionam uns com os outros; consequentemente, não temos as três pessoas distintas que existem como Pai, Filho e Espírito Santo para toda a eternidade. Por exemplo, se o Filho não está eternamente subordinado ao Pai no seu papel, então o Pai não é eternamente "Pai" e nem o Filho eternamente "Filho". Isto significaria que a Trindade não existe desde a eternidade (GRUDEM, 1999, p. 186).

Resta-nos saber, portanto, se a premissa de Grudem se sustenta diante das fontes que o próprio autor afirma defender, ou se ela introduz na teologia trinitária um esquema conceitual que Niceia trabalhou para superar.

I. O problema da leitura de Niceia e da tradição

Chama-nos a atenção a leitura que Grudem faz do próprio Credo de Niceia. Ao afirmar que o Filho é “gerado do Pai antes de todas as eras” e que o Espírito “procede do Pai e do Filho”, o Credo, segundo Grudem, confirmaria uma subordinação eterna de papéis. O problema é que essa inferência não decorre naturalmente do texto niceno; ao contrário, ela desconfigura categorias que, na tradição, foram elaboradas justamente para preservar a igualdade plena entre as pessoas divinas.

Na esteira do Credo Niceno, em Atanásio de Alexandria, a filiação eterna pertence estritamente ao âmbito da origem pessoal. Dizer que o Filho é gerado do Pai não denota submissão funcional, mas garante que Ele possui plenamente a essência do Pai. Pai e Filho se diferenciam pelo fato de um ser o gerador e o outro o gerado; a autoridade jamais serviu, na pena de Atanásio, como critério demarcador de hipóstases. Tratar origem pessoal e subordinação de papel como se fossem termos intercambiáveis compromete a base do raciocínio atanásiano e seria aproximar-se exatamente do equívoco que Niceia combateu.

Já nos Pais Capadócios — Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno —, essa distinção é desenvolvida com maior clareza. Eles oferecem uma compreensão teológica que afirma, simultaneamente, a unidade da essência divina e a distinção real entre as pessoas. Basílio, em Sobre o Espírito Santo (2005), e Gregório de Nissa, em Ad Ablabium, distinguem com rigor a essência comum — ousia — das propriedades hipostáticas — idiomata. O Pai se distingue por ser ingênito, isto é, não gerado; o Filho, por ser gerado; o Espírito, por proceder. A autoridade não aparece como princípio de diferenciação pessoal. Em Gregório Nazianzeno, a taxis trinitária — a ordem entre as pessoas — remete à procedência própria de cada hipóstase. Essa ordem não pode, em hipótese alguma, ser convertida em cadeia eterna de comando.

Com isso, podemos concluir que a distinção real entre as pessoas da Trindade já se encontra preservada nas relações de origem, sem depender de relações eternas de autoridade e obediência. A tradição nicena, nesse ponto, distingue as pessoas sem hierarquizá-las e preserva a ordem trinitária sem transformá-la em subordinação funcional.

Ferreira e Myatt (2008, p. 527) expressam essa dificuldade histórica com uma imagem sugestiva: quem reivindica a subordinação eterna do Filho como ensinamento bíblico e tradicional estaria sentado na ponta de um galho fino, projetado sobre o vazio deixado pela tradição que se supõe sustentá-lo. A formulação é forte, mas aponta para um dado relevante: os credos de Niceia e Atanásio, as confissões reformadas e a recepção de autores como Atanásio, Agostinho e Calvino não oferecem apoio claro à posição. Em vez disso, indicam uma direção diversa, na qual a distinção pessoal não exige hierarquia eterna.

II. A falsa alternativa entre subordinação e distinção

Grudem, em sua discussão sobre o tema, apresenta uma alternativa que, à primeira vista, parece inevitável: ou o Filho está eternamente subordinado ao Pai em seus papéis, ou o Pai não é eternamente “Pai”, nem o Filho eternamente “Filho”, e as pessoas se tornam indistintas. Mas essa alternativa não é a única possível. Pois, como já vimos, a própria tradição nicena oferece outro caminho, que Grudem parece não explorar com a atenção necessária, ou simplesmente despreza.

Na formulação clássica, as pessoas da Trindade se distinguem pelas relações de origem. O Pai é Pai porque gera o Filho; o Filho é Filho porque é gerado do Pai; o Espírito é Espírito porque procede do Pai e do Filho. Essas relações bastam para resguardar a distinção real e permanente entre as pessoas sem que seja necessário introduzir relações de autoridade e obediência na vida imanente de Deus. Por isso, distinção pessoal e subordinação de papéis não podem ser tratadas como equivalentes.

III. A contradição estrutural de vontades introduzida por Wayne Grudem

A nosso ver, o ponto mais delicado da proposta de Grudem está na afirmação de que o Filho obedece eternamente ao Pai. Na vida imanente da Trindade, a questão da vontade não é apenas uma questão de linguagem; ela toca a própria unidade divina. A dificuldade está em que tal cenário parece introduzir uma tensão de vontades que a tradição cristã evitou precisamente por considerá-la incompatível com a unidade divina.

Agostinho de Hipona, em seu tratado sobre a Trindade (1994), consolidou o princípio da unidade da vontade divina de forma que se tornaria estruturante para toda a teologia ocidental posterior: as três pessoas possuem uma única e mesma vontade. É precisamente por isso que as obras de Deus voltadas para fora são indivisíveis — as três pessoas agem conjuntamente a partir dessa vontade única e comum, sem que haja entre elas qualquer descompasso volitivo ou hierarquia de intenções.

Esse princípio ajuda a situar as passagens bíblicas que descrevem a obediência do Filho ao Pai. Textos como “não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22.42) pertencem à economia da encarnação, na qual o Filho assume, juntamente com a natureza divina, uma vontade humana. A submissão se realiza nesse âmbito histórico-salvífico, ligado à natureza humana assumida pelo Verbo. Quando essa obediência é projetada para a eternidade de Deus, os planos acabam se confundindo: aquilo que pertence à humanidade assumida pelo Filho passa a ser transportado para a estrutura eterna da vida trinitária, precisamente onde a tradição nicena e agostiniana insistiu na comunhão perfeita de uma única vontade divina.

A dificuldade, portanto, é que, se a obediência eterna do Filho for tomada em sentido forte, torna-se necessário explicar como ela pode existir sem introduzir, na vida imanente de Deus, uma vontade que ordena e outra que se submete.

Na vida eterna de Deus, não há distância entre o que Deus é e o que Deus faz, nem potencialidades que aguardam realização. Atribuir ao Filho uma função eternamente subordinada, portanto, dificilmente permanece como afirmação apenas funcional. Em algum momento, a linguagem passa a definir ontologicamente aquele que exerce tal função.

As três pessoas não deliberam separadamente para depois convergir em acordo. Elas querem de modo único, porque são uma única vontade divina subsistindo em três pessoas. Falar de obediência eterna nesse horizonte altera mais do que a linguagem funcional: toca a unidade volitiva que a tradição nicena e agostiniana considerou indispensável para falar corretamente de Deus. Ferreira e Myatt sintetizam essa preocupação nos seguintes termos:

(…) não existem duas vontades divinas, que às vezes não estão de acordo uma com a outra, de modo que, para estarem unidas, uma das pessoas teria que deixar de lado seus desejos e se submeter à outra. A vontade divina é única. A vontade do Pai e a do Filho são iguais. Então, não é possível que exista uma cadeia de comando eterna entre ambos (FERREIRA; MYATT, 2008, p. 526).

Conclusão

Concluímos, portanto, que o problema não está apenas em uma passagem isolada da argumentação de Grudem, mas no modo como ele articula Niceia, distinção pessoal e obediência do Filho. Ao ler geração e processão como se implicassem uma ordem eterna de autoridade, sua proposta desloca categorias que a tradição empregou para proteger a igualdade divina.

Por essa razão, a expressão subordinacionismo funcional imanente parece descrever melhor a posição em debate. Ela não acusa Grudem de negar a consubstancialidade do Filho, mas chama atenção para outro ponto: a introdução, na própria vida de Deus, de uma estrutura funcional de autoridade e submissão que a tradição nicena não parece autorizar.

Resta à reflexão contemporânea a  seguinte indagação: como preservar a riqueza bíblica das narrativas de envio e obediência salvífica do Filho sem projetar sobre o Deus eterno as estruturas de poder criadas pelos homens?

Referências

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. Contra os Arianos (Orationes contra Arianos). Disponível em: https://www.documentacatholicaomnia.eu/03d/0295-0373,_Athanasius,_Orationes_contra_Arianos_[Schaff],_EN.pdf

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. Sobre os Decretos do Concílio de Niceia (De Decretis), 19-20. Disponível em: https://yausha.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Carta-Sobre-os-Decretos-do-Concilio-de-Niceia.pdf

CESAREIA, Basílio de. Tratado sobre o Espírito Santo. In: Basílio de Cesareia: Homilia sobre Lucas 12. Homilias sobre a origem do homem. Tratado sobre o Espírito Santo. São Paulo: Paulus, 2005.

IGREJA ANGLICANA DE CAMPINAS. O Quadrilátero de Lambeth. Igreja Anglicana de Campinas | DASP | IEAB, [s. d.]. Disponível em: https://igrejaanglicanacampinas.com.br/o-quadrilatero-de-lambeth/. Acesso em: 15 ago. 2026.

NISSA, Gregório de. Sobre a Distinção entre Essência e Hipóstase (Ad Ablabium). Disponível em: https://www.documentacatholicaomnia.eu/03d/0330-0395,_Gregorius_Nyssenus,_Ad_Ablabium_quod_non_sint_tres_dei_[Schaff],_EN.pdf

NAZIANZENO, Gregório. Discursos Teológicos (Orationes Theologicae), 29.2-3. Disponível em: https://www.newadvent.org/fathers/3102.htm

AGOSTINHO. Patrística: A Trindade. v. 7. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1994.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Allan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2008.

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.