Após muitos anos labutando no ensino teológico, tenho constatado que nenhuma teologia é construída isoladamente, no sectarismo. Na verdade, múltiplas perspectivas são fundamentais para fortalecer umas às outras, seja corrigindo, confrontando ou mesmo confirmando, inclusive por contraste e exclusão. Por isso, compreendo que a teologia requer uma abordagem em multiperspectiva.
Contudo, temos visto surgir, cada vez mais, em muitos grupos, um sentimento de superioridade que tende a excluir pensamentos divergentes. A esse sentimento quero chamar de Teologia de João Narciso.
Narciso era um personagem da mitologia grega que se apaixonou pela própria imagem refletida em um ribeiro de águas límpidas. A paixão foi tamanha que sua vida e sua satisfação passaram a se resumir à contemplação do reflexo do próprio rosto. Tal fixação acabou levando-o à morte.
Da mitologia grega surgiu, posteriormente, o conceito de narcisismo, desenvolvido e aprofundado pelos estudos da psicanálise. Em linhas gerais, o narcisismo descreve uma forma de amor excessivo por si mesmo e pela própria imagem. Para o narcisista, a beleza, a perfeição e a referência estão nele mesmo.
Um poeta definiu muito bem o que é ser narcisista: “Narciso acha feio o que não é espelho.”
Mas, a esta altura, você deve estar se perguntando: o que Narciso tem a ver com teologia? E, finalmente, quem é esse tal teólogo João Narciso?
Embora Freud não tenha tratado de algo chamado “narcisismo teológico”, podemos usar essa expressão para descrever uma debilidade que leva certos cristãos a terem enorme dificuldade em aceitar qualquer outro cristão que não pense exatamente como eles.
O narcisista teológico tem dificuldade de separar usos e costumes de doutrinas bíblicas. Para ele, crente que é crente precisa se vestir como ele: usar paletó em pleno meio-dia, mesmo em cidades tropicais; as mulheres não precisam apenas usar roupas decentes, mas devem vestir saias compridas, usar as mesmas vestes litúrgicas, ler os mesmos livros, adotar os mesmos catecismos etc.
O irmão narcisista praticamente prega que fora do seu grupo não há salvação. Os integrantes de outras igrejas não são irmãos; são, no máximo, primos. E, para se tornarem irmãos — e, consequentemente, salvos — precisam entrar para a sua igreja, ou adotar as mesmas convicções teológicas.
Pastores narcisistas não permitem que pastores de outras denominações preguem em suas igrejas ou ensinem em seus seminários teológicos, mesmo que usem a mesma Bíblia, falem do mesmo Jesus e anunciem o mesmo Evangelho. Afinal, o Pastor Narcisista acha feio o que não é espelho.
A teologia narcisista não permite diálogo com outras interpretações bíblicas, mesmo quando razoáveis, acerca de temas teológicos controversos, mas que não estão no centro da fé cristã: soteriologia — calvinistas e arminianos; escatologia — pré e pós-tribulacionistas, amilenistas e milenistas; dons do Espírito Santo — tradicionais e pentecostais.
O narcisismo teológico estabelece uma linha divisória entre aqueles que aderiram à sua interpretação e aqueles que pensam de maneira diferente. O narcisista geralmente pergunta, ao se deparar com outro irmão: “Ele é reformado? É pentecostal? Ele é Litúrgico Sacramental? De qual denominação ele é?” Antes mesmo de perguntar se aquele irmão foi salvo pelo mesmo Jesus, se lê a mesma Bíblia e se possui a mesma esperança em Cristo Jesus.
O crente narcisista olha para o espelho e pergunta: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais crente do que eu? Existe uma igreja mais salva do que a minha? Existe denominação mais santa do que a minha?”
O narcisista não está preocupado em pregar o Evangelho do Reino, mas em anunciar as ideias de seu teólogo predileto: João Narciso. Em suas mensagens, João Narciso aparece mais do que o próprio Senhor Jesus. E, geralmente, o discípulo consegue ser ainda mais narcisista do que o próprio mestre. Afinal, o que seriam o apóstolo Paulo e os Evangelhos se João Narciso não os tivesse interpretado?
Infelizmente, a denominação narcisista, o irmão narcisista e a teologia narcisista acabam considerando heresia aquilo que não é espelho. E, assim, correm o risco de morrer em seu próprio sectarismo, incapazes de compreender que unidade não é uniformidade e que o Corpo de Cristo não está submetido a um exclusivismo denominacional ou teológico.
A verdadeira unidade cristã não exige que todos tenham o mesmo rótulo, a mesma tradição, os mesmos costumes ou a mesma leitura de todas as questões secundárias. Ela exige algo mais profundo: que Cristo seja o centro, que o Evangelho seja o fundamento e que aqueles que pertencem a Cristo reconheçam uns aos outros como membros do mesmo Corpo.
Porque, assim como em um só corpo temos muitas partes, e todas elas têm funções diferentes, assim também nós, embora sejamos muitos, somos um só corpo por estarmos unidos com Cristo. E todos estamos unidos uns com os outros como partes diferentes de um só corpo. Romanos 12:4-5
Porque, no fim, o problema do narcisismo teológico não é apenas olhar demais para si mesmo. É olhar para Cristo e não reconhecer nele o próprio reflexo, pois, para o narcisista, até Cristo precisa caber na sua imagem e semelhança.
Pr. Jonas Silva